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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O Heraldo.


É lamentável a forma como a língua portuguesa se perdeu em Goa, só subsistindo nos monumentos históricos. Aquando da tomada de Goa pela Índia, 40% dos habitantes falava português, mas hoje só 5% dos goeses conhecem a nossa língua. Tal é dramático para a memória histórica de Goa, pois todos os documentos do período colonial se encontram escritos em português. Tive o caso de um estudante que me pediu ajuda para um trabalho que queria fazer sobre o Direito Penal de Goa no tempo do domínio português. No entanto, como não falava português, não conseguia compreender o nosso antigo Código Penal, pedindo ajuda para a sua tradução para inglês, sem que houvesse alguém que a pudesse fazer em Goa. É espantosa a facilidade com que o inglês suplantou completamente o português em Goa, em pouco mais de quarenta anos.


Um exemplo é o jornal Herald, que se pode encontrar aqui. Totalmente escrito em inglês, o jornal apresenta-se como "the voice of Goa since 1907" e tem uma coluna que publica notícias de há cem anos. Pensamos naturalmente como é que seria possível um jornal em Goa ter esse nome há cem anos, mas, vendo essa coluna, verificamos que o jornal se chamava então "O Heraldo", apresentando-se como "o mais antigo diário das colónias portuguesas". Olhando novamente o título actual, verifica-se que os dois OO ainda se mantêm, tendo sido modificados para destacar o inglês Herald, utilizando o jornal ainda o nome antigo no seu domínio na internet. Por aqui se vê como a herança da língua portuguesa em Goa pode surgir debaixo do título de um jornal em inglês.

A ilha de São Jacinto.







À saída da cidade de Vasco da Gama deparamos com a Ilha de São Jacinto, um pequeno ilhéu com umas casas e a Igreja do mesmo nome. Curiosamente, um barco de pescadores ostenta ainda a bandeira de Portugal, não se percebendo com que finalidade tantos anos depois.

A Igreja de Nuvem.




Embora bastante mais recente, tem interesse visitar a Igreja da vila de Nuvem, nos arredores de Marvão. A estátua do Cristo-Rei ainda possui as inscrições em Português.

O forte de Tiracol.











É bastante interessante a visita ao Forte de Tiracol, que constitui praticamente um enclave de Goa no Estado do Maharastra. Vindo de Goa, só se lá chega de ferry, atravessando um rio, enquanto que do Maharastra, o Forte é facilmente acessível por terra. Não admira, por isso, que nos tempos da presença portuguesa o Forte fosse continuamente atacado por combatentes indianos, que nele hasteavam a bandeira da Índia. Hoje, o Forte é um hotel, visitado por turistas de todo o mundo, em busca dos vestígios da herança portuguesa na Índia.

O templo de Perném.




No Norte de Goa a presença hindu é bastante mais forte do que no Sul. Em Perném, quase na fronteira do Estado, encontra-se este magnífico templo hindu, com estátuas de elefantes em tamanho natural.

A Igreja de São Francisco de Assis em Velha Goa




Uma das Igrejas que mais me impressiona em Velha Goa, para além das monumentais Basílica do Bom Jesus e da Sé Catedral, é a Igreja de São Francisco de Assis. O altar principal ilumina os frescos à volta com imagens da vida do Santo, a milhares de quilómetros dos sítios em que exerceu o seu ministério. A quantidade de igrejas católicas em Goa levou a que esta tivesse ficado conhecida como "a Roma do Oriente".

Os templos hindus de Ponda.







A cerca de quarenta quilómetros de Pangim encontra-se Ponda, que possui templos hindus de grande beleza. É impressionante o contraste entre os templos católicos e os templos hindus, que coexistem ao longo do Estado de Goa.



segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Regresso a Goa.


De novo em Goa, para leccionar mais uma série de conferências no Salgaocar College. Goa continua absolutamente magnífica e os 35 graus de temperatura que encontramos são um agradável contraste ao rigoroso Inverno que estamos a atravessar em Portugal. Mas a Índia, que hoje, dia da República, festeja os seus 6o anos de independência, encontra-se a atravessar tempos difíceis. A televisão só fala da guerra ao terrorismo, e de facto as medidas de segurança que encontramos, quer no aeroporto, quer no hotel sao elevadíssimas. No hotel, os carros são revistados à entrada do parque de estacionamento e os hóspedes passam por detectores de metal quando entram no edifício. Por outro lado, surgem outras notícias preocupantes, como este ataque contra mulheres num bar por um grupo de vigilantes dos costumes, que levam a que na comunicação social se compare a situacao com os talibãs. É, de facto, preocupante o mundo em que vivemos.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O Forte de Chapora.





É difícil encontrar no mundo vistas tão deslumbrantes como as que se vêem do Forte de Chapora, sobre a Praia de Vagator e a foz do rio Chapora. De facto, a beleza de Goa é absolutamente extraordinária.

As cataratas de Dudhsagar.




Em qualquer visita a Goa, é imperdível um passeio às cataratas de Dudhsagar.


Situadas numa floresta tropical, na fronteira entre os estados indianos de Goa e Karnataka, o acesso às mesmas é difícil, tendo de se fazer por jipe onde se atravessam três cursos de água. Mas a vista das cataratas é deslumbrante. A água cai de uma enorme altura e vem extraordinariamente fresca, o que proporciona um agradável contraste com o calor enorme que se faz sentir na floresta. Goa não possui apenas história, mas também extraordinárias belezas naturais.

A Casa dos Bragança em Chandor.








É um absoluto fascínio a visita à Casa dos Bragança em Chandor, cuja construção se iniciou no séc. XVI e que mantém hoje os traços típicos das casas senhoriais do séc. XVIII. A casa encontra-se actualmente dividida em duas alas, pertencendo a primeira à família Bragança Pereira e a segunda à família Menezes Bragança. Esta é a ala mais interessante, cuja história se encontra aqui, a qual pertence actualmente a Aida de Menezes Bragança, com mais de 90 anos de idade, e que nos transmite as suas recordações dos tempos coloniais e da transição para a Índia. Conversa fascinante sobre um passado, que agora nos parece tão distante.

A tomada de Goa pela União Indiana em 19 de Dezembro de 1961.


A operação Vijay , através da qual a União Indiana executou a tomada de Goa, terminou com a rendição das tropas portuguesas, que ainda esboçaram alguma resistência, embora sem corresponder ao patético apelo de Salazar, a dizer que "não prevejo possibilidade de tréguas nem prisioneiros portugueses, como não haverá navios rendidos, pois sinto que apenas pode haver soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos". O resultado prático de tão absurdo apelo acabou por ser a impossibilidade de Portugal manter qualquer relação com Goa até ao 25 de Abril. Veja-se este diploma decretando o aprisionamento dos portugueses europeus em Goa, aprovado pelo Governo indiano de Goa, Damão e Diu, logo a seguir à rendição.


A herança portuguesa em Goa.




São extremamente interessantes os monumentos que nos recordam a presença portuguesa em Goa, como a Sé Catedral, a Basílica do Bom Jesus (onde se encontram os restos mortais de S. Francisco Xavier) e o Arco do Vice-rei, curiosamente construído no tempo de Filipe I.
Cabe lembrar as referências à tomada de Goa por Afonso de Albuquerque, escritas por Camões, nos Lusíadas, II, 51, e X, 42:

Goa vereis aos Mouros ser tomada,
A qual virá depois a ser senhora
De todo o Oriente, e sublimada
Co'os triunfos da gente vencedora.
Ali soberba, altiva, e exalçada,
Ao Gentio, que os ídolos adora,
Duro freio porá, e a toda a terra
Que cuidar de fazer aos vossos guerra.


Que gloriosas palmas tecer vejo
Com que Vitória a fronte lhe coroa,
Quando, sem sombra vã de medo ou pejo,
Toma a ilha ilustríssima de Goa!
Despois, obedecendo ao duro ensejo,
A deixa, e ocasião espera boa
Com que a torne a tomar, que esforço e arte
Vencerão a Fortuna e o próprio Marte.



Mas a presença portuguesa em Goa teve também um lado negro, de que cabe salientar a instituição da Inquisição, admiravelmente recordada no romance histórico de Richard Zimmler, Goa ou o Guardião da Aurora, 2005






terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Viagem a Goa II

Mercado de Goa

Entretanto, aqui na Índia, troca de impressões com o Professor Carmo d'Souza sobre a herança portuguesa em Goa. Goa é desde 1987 um Estado da União Indiana, tendo-se nessa altura separado de Damão e Diu que permaneceram como território da União, não integrado em qualquer Estado. Da minha parte, recordo-me de na escola primaria, no Colégio Moderno, ainda nos terem ensinado a "província de Goa, Damão e Diu" e quando um colega de carteira referiu que a mesma já não pertencia a Portugal, a professora replicou que "ainda constava do nosso programa". Carmo d'Souza, uns anos mais velho, informa-me que na escola primaria em Goa tinha igualmente aprendido toda a geografia de Portugal e das antigas colónias de Africa, mas nada sobre o sub continente indiano. De facto, é espantosa a facilidade com que no antigo regime se ignorava pura e simplesmente a realidade.




Goa, 12/02/2008.

Viagem a Goa I



Nesta semana, estadia em Goa para leccionar aos alunos do Salgaocar College o Código Civil Português de 1966. Presentemente, Goa tem um sistema jurídico único no mundo, dado que mantém o Código Civil de 1867 mas apenas na matéria de Direito da Família e Direitos Reais, tendo passado a adoptar o regime da Common Law no âmbito do Direito das Obrigações. Os alunos transmitem-me, no entanto, que as soluções que adoptamos neste âmbito não diferem daquelas que aprendem no seu curso. Efectivamente, normalmente os casos costumam ter a mesma solução nos diversos sistemas jurídicos, independentemente da argumentação jurídica que os fundamenta.


Goa, 12/02/2008.