segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A derrocada do sistema financeiro causada pela Câmara dos Representantes.

O Plano da Administração Bush para salvar o sistema financeiro americano, com a injecção de 700 mil milhões de dólares para compra de crédito mal parado (activos tóxicos) era seguramente muito pouco popular para o contribuinte norte-americano, já que o fazia pagar pela atitude irresponsável das instituições financeiras. Não parecia, no entanto, existir outra solução possível para a gigantesca crise que os Estados Unidos atravessam, e que já se começa a estender à Europa. O chumbo deste plano na Câmara dos Representantes é por isso uma péssima notícia. Estamos à beira de uma catástrofe económica de grandes dimensões e parece que não há soluções para a evitar. O que se seguirá nos próximos dias?

O Bastonário e os Magistrados.

No Expresso de sábado passado (texto aqui), Marinho e Pinto, assumindo a mera qualidade de articulista, achou por bem responder ao apelo do Presidente da República no sentido de que se respeitassem os magistrados. Mais uma vez o artigo não passa de uma diatribe constante contra os magistrados, provando a verdadeira obsessão que Marinho e Pinto tem nesta matéria. Principalmente, não se percebe por que razão enfileira na guerra contra o sindicalismo nas magistraturas. Que se saiba, ainda existe liberdade sindical neste país, e se os magistrados devem constituir sindicatos ou não, é questão que diz exclusivamente respeito aos próprios magistrados. Se há discussão em que quem exerce funções na Ordem dos Advogados não deve entrar, é precisamente essa.
Como não poderia deixar de ser, o Presidente da Associação Sindical dos Juízes respondeu hoje no DN (texto aqui) de forma bastante contundente a Marinho e Pinto, sem sequer o nomear. É triste ver o Bastonário da Ordem dos Advogados envolvido em polémicas estéreis com os representantes dos sindicatos dos magistrados. E não há candidatura à Presidência da República (a meu ver mais imaginária que real) que pague os danos que este tipo de actuação causa à imagem e coesão da Ordem dos Advogados.
Em vez dos seus ataques constantes aos magistrados, o Bastonário deveria dedicar-se à Ordem e aos advogados. Mas neste aspecto, há novidades a salientar. Está anunciado no site da Ordem que o Bastonário vai reunir com os Conselhos Distritais e vai receber uma advogada. É bom saber que os actos mais normais da função de Bastonário passaram a ter uma importância tal que justificam a publicação no site da Ordem. Para que conste.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

A proposta de adiamento do debate presidencial nos EUA

Tem sido considerada entre nós (ver aqui e aqui) como uma manobra desesperada da candidatura de John McCain a proposta do adiamento do primeiro debate presidencial, face à crise económica que os Estados Unidos estão a atravessar.
Acho a análise precipitada, semelhante às primeiras observações sobre a desvantagem da escolha de Sarah Palin, que hoje toda a gente reconhece que veio a trazer um contributo muito positivo a uma campanha que todos davam por perdida. John McCain já demonstrou ser exímio a tirar coelhos da cartola, e a superar adversidades eleitorais evidentes.
Pense-se um pouco: o debate que está agendado para sexta-feira é sobre política externa. Ora, no momento em que os cidadãos americanos estão a assistir ao descalabro da sua economia, que sentido fará a realização de um debate com um tema completamente estranho às preocupações do eleitorado? Se alguma coisa poderá produzir é o aumento da abstenção.
Por outro lado, tanto McCain como Obama são senadores norte-americanos. Ora, num momento em que a Administração Bush propõe ao Congresso a compra dos créditos incobráveis ("activos tóxicos") das instituições financeiras, levando a que seja o contribuinte americano a pagar a factura da aventura irresponsável do crédito "sub prime", não será de estranhar que os candidatos presidenciais se isolem do tema, e apareçam na televisão a discutir o Iraque, o Irão, Israel ou a Coreia do Norte?
Acho de facto que a proposta de McCain é capaz de lhe trazer alguma vantagem eleitoral. Vamos a ver o que sucede.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

O dia europeu sem carros.

Considero um dos maiores exercícios de hipocrisia a iniciativa do dia europeu sem carros. Na verdade, ao contrário do que se tem defendido, esta iniciativa é contraproducente para a defesa do ambiente. A abstenção da utilização do carro um dia por ano não tem quaisquer efeitos na redução das emissões, apenas servindo para tranquilizar as consciências das pessoas, que continuam a poluir alegremente os restantes dias do ano. Quanto aos incentivos para abandonar o automóvel, ninguém os apresenta. Só o aumento do preço dos combustíveis é que está a levar as pessoas a deixar os carros em casa.

No início, quando foi lançada a iniciativa, o dia europeu sem carros era sempre sinónimo de caos em Lisboa. Logo à saída da praça de Espanha, a polícia, com imenso esforço, barrava a entrada aos automóveis, sendo que os condutores, perante esta atitude, os abandonavam no centro da praça (!), sem que a polícia fizesse absolutamente nada, desesperada para evitar que outros condutores tentassem passar. Como resultado, no fim do dia o espaço verde ali existente ficava completamente degradado, com muito maior lesão para o ambiente do que a passagem de alguns automóveis para o centro da cidade.

Em consequência, desde há uns anos para cá verificou-se uma redução dos espaços vedados ao trânsito, levando a que o dia europeu sem carros passe completamente despercebido à maioria dos lisboetas.

Por esse motivo, ignorando que hoje era o dia europeu sem carros desloquei-me de automóvel à baixa, onde precisava de tratar de um assunto profissional. À entrada do Rossio vejo uma barragem da polícia, que me fez suspeitar de um crime grave a decorrer, o que não era de estranhar perante a onda de violência que tem atingido o país. Perguntei o que se passava, e informaram-me então de que era o dia europeu em carros. Conformado, felizmente encontrei lugar onde estacionar nos Restauradores e fiz a pé as poucas centenas de metros que faltavam para o meu destino. O passeio até foi agradável, mas não deixei de me questionar se valeria a pena ocupar a polícia com esta iniciativa, já que seguramente apenas uma reduzidíssima área da Baixa ficou efectivamente vedada ao trânsito.

O que me deixou, no entanto, perplexo foi verificar quando voltei que a polícia deixava passar todos os carros oficiais para os ministérios a que se dirigiam, sendo que a maior parte deles, além do motorista, levava apenas uma única pessoa. Como é possível pretender que os cidadãos respeitem o dia europeu sem carros se o mesmo não é respeitado por quem deveria dar o exemplo? Com que moral se institui para o comum dos cidadãos uma regra que os titulares de cargos públicos se recusam pura e simplesmente a cumprir? Existe de facto um grave défice de cultura democrática no nosso país.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A "abstenção construtiva" do PSD


Só por piada é que o líder parlamentar do PSD pode recomendar aos deputados a abstenção na votação da revisão do Código do Trabalho, referindo que se trata de uma "abstenção construtiva", eufemismo disparatado que só serve para demonstrar a apatia em que o partido vegeta. Com esta atitude, o PSD só exibe as suas fraquezas, que a maioria parlamentar não deixa de explorar.

A revisão das leis laborais é sempre uma das reformas mais importantes que se podem fazer na área socio-económica. Não ter posição sobre ela equivale a não ter posição sobre os assuntos mais relevantes para o país, o que é sempre mortal para o maior partido da oposição. O país precisa do PSD e para isso tem que saber quais são as alternativas propostas a esta política. E ao contrário do que parece pensar o líder parlamentar do PSD, se há coisa que caracteriza o silêncio e a abstenção é o facto não construirem absolutamente nada.