Esta crónica de Pedro Mexia contra os advogados, para além do tom brejeiro, que manifestamente não esperaríamos encontrar num jornal como O Público, não passa da reprodução de um estereotipo sobre a profissão, que nem sequer é português, mas antes norte-americano.
Acho especialmente grave que Pedro Mexia considere uma anedota o art. 83º do Estatuto da Ordem dos Advogados, que estabelece os deveres deontológicos que os advogados devem ter na sua profissão. Na verdade, a esmagadora maioria dos advogados respeita o seu Estatuto, pelo que não merecem ver a sua profissão achincalhada desse modo.
Pedro Mexia agradece o facto de não ter passado no exame de agregação à Ordem, uma vez que acha que, se tal tivesse acontecido, provavelmente seria hoje "um advogado de sucesso, atravessando a cidade no seu descapotável, com um belo casaco de caxemira, um relógio com um mostrador gigante, as unhas de manicura esmerada, os lavados e muitos dentes brancos à mostra", já que para ser "um coçado advogado da comarca de Lamego não teria valido a pena". Não é nem uma coisa nem outra, uma vez que por nomeação governamental exerce actualmente funções de direcção na Cinemateca Portuguesa, para além de escrever crónicas destas. Merece efectivamente felicitações por este extraordinário sucesso profissional, de que a passagem no exame da Ordem o teria infelizmente privado.
Duvido, porém, que tivesse sido o advogado de sucesso com as características que refere, até porque não conheço nenhum advogado de sucesso com essas características. Conheci, no entanto, muito bem quando concorri a Bastonário da Ordem os advogados da comarca de Lamego e prefiro-os mil vezes ao cronista Pedro Mexia.