sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O caso TVI

Talvez seja excessivamente duro este artigo de Eduardo Cintra Torres. Mas a situação a que se assiste hoje em termos de comunicação social só tem de facto paralelo com o caso República em 1975. A República era nessa altura o único jornal que destoava da informação oficial do PREC e por isso foi silenciado. Ora, por muitas críticas que se pudessem colocar ao Jornal Nacional de 6ª da TVI, não há dúvida de que era um telejornal que desagradava ao Governo, pelo que a sua suspensão a três semanas das eleições favorece objectivamente o Governo. 

Se a decisão de o suspender neste momento tem mais custos eleitorais para o PS do que os benefícios causados pela suspensão, isso nunca poderemos saber. Depende do material que esse Jornal Nacional viesse a publicar nas três edições que faltavam até às eleições. Em qualquer caso, a suspensão de um programa crítico do Governo, que era o mais visto dos programas informativos, altera claramente os dados do jogo eleitoral, o que é extremamente grave.

É perfeitamente espantoso que a suspensão de um telejornal possa ser justificada pela administração da empresa, primeiro com critérios económicos, e depois com a necessidade de "homogeneizar a informação do canal". Em relação aos critérios económicos, não percebo como é que uma empresa de televisão suspende, em prejuízo para os seus próprios accionistas, um dos seus programas com maior audiência. Quanto à "homogeneização da informação", deixa-me pessoalmente arrepiado que alguém tenha esse objectivo. Onde existe "informação homogeneizada" é nos países totalitários.

As pessoas deveriam compreender que a liberdade de imprensa não significa permitir que seja publicado aquilo de que gostamos, mas precisamente tolerar que os outros publiquem aquilo de que não gostamos. Se houver abusos dessa liberdade, é aos tribunais que compete sancioná-los, não sendo aceitável a censura prévia e muito menos o silenciamento de programas críticos. Na verdade, basta de "informação homogeneizada" em Portugal.

Um comentário:

Bruno Castro Pereira disse...

Este caso faz-me lembrar a ideia cultural que tanto prezo nos povos britânico e norte-americano: concerteza que também têm os seus defeitos, mas equilibram-nos com a capacidade - difícil - de gozarem com eles próprios (sentido de humor apurado) e de conviverem bem com a democracia e com a justiça (sistemas políticos perenes).